“Vamos trabalhar na delicadeza, no silêncio e no afeto, daí tudo dá certo”, anuncia Selton Mello no set de filmagem de Feliz Natal, seu primeiro longa-metragem lançado em 2008. O que esperar de um filme que é dirigido por um ator? Espera-se que ele desenvolva um trabalho minucioso e preciso com seu elenco. Selton aplaude a atuação dos atores no set.
Sua atração pelo cinema vem pela liberdade do criar. No cinema as pessoas são mais naturais, menos produzidas, não há a necessidade do belo imposta pela TV. A necessidade do maniqueísmo entre o bem e o mal não existe, as pessoas simplesmente são. A direção de Selton não é verborrágica, ele se preocupa muito mais com o impulso transformador das coisas que não são ditas.
A câmera frenética parece ter o movimento natural dos olhos que salta de um objeto para o outro com a curiosidade de quem anseia ver e sentir tudo de muito perto. Sob direção de Selton, a câmera fica no cangote dos personagens, sutilmente se aproxima, e concede à estória uma abordagem orgânica. Acompanha cada marejar de olhos, cada tremor da face. Por vezes observa e registra tudo do lado de fora, da janela da cozinha ou da porta do quarto. A vitalidade de seu cinema está na liberdade da câmera.
Feliz Natal traz a história de Caio, um homem de quarenta anos que vive afastado de sua família e tem um ferro-velho. O roteiro é uma parceria de Selton com o também ator e compositor, Marcelo Vindicatto. O filme permite ao espectador o exercício da arte de contar a sua própria história, de imaginar o que há no contexto maior. O diretor filma as entrelinhas da narrativa, aquilo que não é dito. E cada espectador está convidado a preencher as linhas com o que não é revelado. Selton faz isso conscientemente. “É muito gratificante fazer alguma coisa que só passa a existir a partir do olhar do outro”, revela na gravação do making of do longa. O espectador que gosta de uma história completa, fechada em si, vai se decepcionar com o resultado.
Os atores dirigidos por Selton estão em um estado diferenciado de graça, de loucura, de criatividade. Leonardo Medeiros, o protagonista, é conhecido do diretor desde 1998, quando contracenaram juntos no poético Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho. O elenco, com aproximadamente onze atores principais, morou por cinco meses numa fazenda em Minas Gerais para a gravação do filme, lançado apenas em 2001.
Em 2006, na sala de espera do dentista, escolheu Paulo Guarnieri para fazer o personagem Beto, após vê-lo em uma matéria sobre a morte de Gianfrancesco Guarnieri. Paulo havia desistido da carreira de ator, abriu uma pousada em Paraty. Selton o convidou, insistiu e recebeu um sim. A escolha do time não parava por aí, Darlene Glória foi sua entrevistada no programa Tarja Preta, que apresenta no Canal Brasil. Sua trajetória o inquietou. Logo a convidou pra fazer - na época do convite - nem sabia o quê em seu filme. Lúcio Mauro, ator principalmente conhecido por seu lado cômico, também compõe o elenco e destaca-se no longa com uma interpretação introspectiva e rígida.
Admirador dos trabalhos de Rogério Sganzerla (diretor do filme O bandido da luz vermelha, de 1968), John Cassavetes, que neste ano teve, finalmente, seus filmes lançados em DVD, e de tantos outros que fazem um “cinema corajoso”, ao falar de gente, de pessoas comuns. O maior desafio de Selton Mello é transformar seus milhares de referências em originalidade. Conseguiu? Talvez seja cedo para dizer. O filme é preciso sem perder a leveza e espontaneidade, embora o próprio ritmo da narrativa entregue de bandeja a história dramática que está por vir.
Feliz Natal é repleto de referências, uma das mais marcantes é a atuação visceral de Darlene Glória na pele da mãe de Caio. A sequência é uma menção direta ao filme Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor, também interpretado por Darlene. A atriz está sentada. O figurino pronto: um robe longo azul marinho de seda. Selton, ao seu lado, em pé, explica o que quer da atriz, o movimento que ele precisa que ela faça. A atuação de Darlene rendeu três premiações em festivais nacionais. Selton busca filmar o estado bruto, espontâneo, natural das coisas. O rápido andar das formigas devorando o banquete natalino é captado em uma curta sequência. Tudo parece muito normal e na pequeninez dos fatos o caos acontece. A falta de linearidade da narrativa preserva os mistérios de uma estória que tem a trilha sonora apresentada como um personagem, e revela o cinema “musical” que Selton gosta de realizar.
O diretor parece tranquilo e satisfeito com o resultado do filme que é, para ele, “imperfeito” assim como a vida. Como ator que também é, está sempre aberto, dizendo “sim” para as oportunidades lançadas pelo acaso e buscando “junto com os atores ir colhendo a flor que não se espera”.
Música e Televisão
Sempre que possível Selton trabalha com a definição espanhola de roteiro, guíon, um guia não fechado que sempre pode absorver a vida que nasce no momento. O seu último trabalho, o clipe da música Esconderijo de Ana Cañas, foi exatamente assim. “Para fazer poesia não há a necessidade de um roteiro”, argumenta Selton, que investe na cumplicidade com os atores para realizar seu trabalho.
A leveza de Ana combinou com a liberdade de um clipe “sem roteiro”. Ela confiava totalmente na paixão dele pela arte e pelo cinema. Sabia que estava pisando em terreno seguro. Ana e seu vestido colorido rodam iluminados pela luz natural do sol que penetra na janela oval do antigo casarão. “No clipe, a minha marca é a sinceridade para cantar, tocar e olhar. Selton capturou isso de uma forma natural e eu me vejo muito ali. Ele tem sensibilidade em preservar essas intenções sutis”, elogiou Ana Cañas. Esconderijo, assim como Feliz Natal, foi realizado em parceria com Lula Carvalho, diretor de fotografia e câmera. Alguns críticos dizem que Selton como ator tem cacoetes facilmente identificados em todos os seus personagens. Como diretor as suas produções possuem traços em comum que esboçam um estilo definido. O clipe Flerte Fatal do extinto IRA!, gravado em 2007, antes do longa-metragem, já tem a mesma câmera próxima, cúmplice dos atores nas cenas.
Selton sabe que o interessante acontece quando o ator se permite sair do seu estado de conforto. Os atores dirigidos por ele estão em seu máximo, são maiores que a extensão de seus corpos; são sublimes e horrendos. Quem assistiu a atuação de Emílio Orciollo Netto no clipe, e lembra de alguma cena em Feliz Natal sabe exatamente o que isso significa. Selton parece gostar de captar o descontrole, a catarse completa de seus atores e personagens. Levemente se tem a impressão que a letra de Edgar Scandurra surgiu depois do clipe, ou ambos nasceram ao mesmo tempo.
"São Paulo 5:03 da manhã sinto a ferrugem, telefone continua calado. Chego em casa tomo meu whisky e alimento mais a minha solidão O gosto amargo insiste em permanecer no meu corpo Corpo...corpo...está nú... Gelado com o peito ardendo, gritando por socorro, preste a cair do 14º andar... A sacada é curta, o grito é inevitável... Eu vou acordar o vizinho, eu vou riscar os corpos, eu vou te telefonar... E dizer que eu só preciso dormir..."
Tanta gente hoje descansa em paz Um rock star agora é lenda Esse flerte é um flerte fatal Que vai te consumir Em busca de um prazer individual Esse flerte é um flerte fatal É sempre gente muito especial Muita gente já ultrapassou A linha entre o prazer e a dependência E a loucura que faz O cara dar um tiro na cabeça Quando chegam além E os pés não tocam mais no chão Esse flerte é um flerte fatal Quanta gente já ultrapassou A linha entre o prazer e a dependência E a loucura que faz O cara dar um tiro na cabeça Quando chegam além E os pés não tocam mais no chão Esse flerte é um flerte fatal
Outra característica marcante em sua direção é a relação especial com o universo infantil em contraposição às degradações da vida adulta. Emílio Orciollo Netto se vê criança no espelho, Ana Canãs ganha uma miniatura também em seu clipe, em Feliz Natal o menino é afetado pelo desequilíbrio da sua família.
Em Corpo Fechado, clipe solo de Nasi de 2006, uma criança novamente sofre as consequências das decisões dos adultos ao seu redor. O carro para na porta de uma casa térrea branca, Leonardo Medeiros, que também está no clipe, abre a porta do carro e sai. Apressadamente acende um cigarro. Ele contorna o carro pela frente, seus passos são largos e nervosos, com fúria afasta um galho da planta que está no caminho. Entra na casa e em menos de vinte segundos sai desnorteado, derruba o bambu do varal, quase arranca a pequena árvore. Segundos depois a menina sai correndo atrás do carro. Durante toda essa sequência a câmera intimista de Selton dá lugar à imagem estática que enquadra a residência e o carro. O que ocorre dentro da casa é o ápice do clipe, e, genialmente, não é mostrado. Cabe ao espectador imaginar. O resultado rendeu indicação para o VMB 2006 (Video Music Brasil, da MTV) de melhor direção e melhor fotografia.
Wolverine Blues, dirigido em 2006, também foi para o parceiro Nasi. O clipe conscientemente tosco foi inspirado nos comics da Marvel da década de 60. Nele Nasi, nos traços de Wolverine, enfrenta ninjas e um lutador de sumô, com direito a muitos POU, SOC, TUM, BAM. A sutil característica de Selton neste vídeo está no final inacabado e o clipe termina na eminência de algo.
Em Eu vou tentar, também do IRA!, Selton também foi indicado na categoria de melhor clipe do ano pelo VMB 2007, e traz muitos detalhes, projeções coloridas, alegres e frenéticas. Selton filma como se retratasse seu próprio espírito. É uma história de amor, com drama, suspense e um final feliz Os personagens sentem uma felicidade intensa e quase insana quando estão juntos. A letra da música Eu vou tentar, composta por Rodrigo Koala traz a renovação. O poder de olhar algo muitas vezes, como se fosse a primeira vez.
Hoje eu saio cedo Sem saber se vou voltar Caminho entre os carros Deixo a rua me levar Vou ser feliz Longe daqui E mesmo que eu encontre Um caminho diferente Que aproxime o eu de mim E afaste o eu da gente Eu vou tentar Eu vou tentar Vou só sem uma foto, uma lembrança, uma canção Te deixo de herança, o som do velho violão Acorde em Mi Maior Pra você ter algo de mim E sempre que estiver sozinha Nas tardes de domingo É só você pensar que eu Eu vou voltar sorrindo Eu vou tentar Eu vou tentar Eu vou tentar fazer você feliz Nem que seja pela última vez Eu vou tentar fazer você sentir Tudo como na primeira vez Eu vou tentar... E sempre que estiver sozinha Nas tardes de domingo É só você pensar que eu Eu vou voltar sorrindo Eu vou tentar Eu vou tentar fazer você feliz Nem que seja pela última vez Eu vou tentar fazer você feliz Nem que seja pela última vez Hoje eu saio cedo Sem saber se vou voltar...
Como diretor de televisão, Selton Mello ficou quatro anos à frente do programa Tarja Preta, no Canal Brasil. Este trabalho trouxe para as suas mãos o Prêmio Qualidade Brasil na categoria Melhor Programa da TV a cabo. Também para a televisão dirigiu para o Canal Brasil O Mundo de Afonso Brazza e Esperando Godot, sobre a peça de teatro dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, para o Multishow.
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Como surgiu o cinema
Selton decidiu que queria criar muito mais do que um personagem, queria ver universos se concretizando ao seu redor. Sabia que seu campo de atuação na TV era restrito. Ainda muito cedo em sua carreira sentiu a insegurança de manter suas raízes em um lugar só. O menino, ator Selton Mello, perdeu espaço na telelinha ao entrar a pré-adolecência, o que foi sem dúvida bem traumatizante.
O cinema permitia mais liberdade e desafios. Sua lógica industrial era bem menos agressiva do que a da TV. Sua estreia como diretor de cinema ocorreu em 18 de agosto de 2006. Seu primeiro curta, Quando o tempo cair concorreu na mostra competitiva de curtas do Festival de Gramado do mesmo ano. O filme apresenta Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, no papel principal. Aqui a câmera aparece mais desgrudada do personagem. Selton apresenta um ângulo de cada vez. Porém, ainda espreita o cotidiano dos personagens pela porta ou pela janela.
O curta conta a história de um avô aposentado que ao ver o filho desempregado e em depressão, resolve voltar ao mercado de trabalho para ajudar no sustento do neto. Quando o tempo cair rendeu a Jorge Loredo a participação no novo filme de Lais Bondasky, além de uma homengem à sua carreira no Festival de Vitória de Cinema de 2006 e o Tatu de Prata de melhor ator pela sua atuação na 34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia. O curta de aproximadamente 15 minutos, também foi selecionado para o Festival Internacional de Cine em Guadalajara e para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Uma das intenções de Selton ao convidar Jorge foi justamente tirá-lo do ostracismo, já que o autor há mais de trinta anos não era convidado para atuar em cinema. O Zé Bonitinho aparece sem a peruca com cabelo brilhante de tanta brilhantina, sem o topete ou a costeleta de Elvis. No lugar há a calvice e uma leve penugem branca. O lápis preto que coloria sua sobrancelha e desenhava seu bigode foram apagados pelo tempo. A enorme gravata borboleta que enfeitava seu pescoço foi substituída por um asseado terno preto. Seu diálogo nada lembra as máximas de Zé Bonitinho "O chato não é ser bonito, o chato é ser gostoso”. Ou ainda "Hello mulheres do meu Brasil varonil... vou dar a vocês agora um tostão da minha voz... Câmeras, close! If I had a thousand women... au au... au au."
A verba para o novo longo de Selton Mello, Filme de Estrada acaba de receber R$ 800 mil do edital aberto pela Ancine. A estreia está prevista para 2010, e tudo indica que o diretor se aventurará no universo do picadeiro, de uma trupe que viaja pelos Brasis fazendo apresentações.
Selton revelou em uma entrevista que conversou com o vocalista e compositor do Cordel do Fogo Encantado, Lirinha, quando estava construindo o seu personagem Leléu de Lisbela e o Prisioneiro. Coincidentemente, o Cordel tem uma música que trata exatamente dessa temática do circo, chamada O palhaço do circo sem futuro
Sou palhaço do circo sem futuro Um sorriso pintado a noite inteira O cinema do fogo Numa tarde embalada de poeira. E a lona rasgada no alto No globo os artistas da morte E essa tragédia que é viver, e essa tragédia Tanto amor que fere e cansa
Basta saber se Selton, em meio a seu turbilhão de referências, abordará o sublime ou o horrendo. Ou os dois.
*Aspas, pensamentos e aspirações de Selton Mello foram retirados do making of do clipe Esconderijo, de Ana Cañas, e do filme Feliz Natal.
[ < Voltar ]De estéticas esquizofrênicas, de textos sem pimenta, sossegadinhos, e narrativas loucas, doidas, insanas, marotas como as curvas da garota da página 46. E você passando os olhos no meio dessa patacoada toda, capturando o que parece convidativo ao fosfato que queima forte, rápido, na fagulha dessas sinapses. Por isso, nessa 23, aperte com gosto o gatilho pra sentir a chama arder nas histórias escondidas logo atrás dessas páginas. Na edição da UP! que você tem em mãos, ampla como um almanaque, não basta buscar costuras entre os temas, eles pouco se conectam. Esta, defi nitivamente, é uma edição fragmentada. E assim, toda internamente autônoma e saidinha, traz temas importantes.
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