Os Atalhos e Percalços Para Uma Pós No Exterior

Quando parece que a pressão de decidir que carreira escolher chega ao fim com o passar do vestibular, o final da faculdade exige uma escolha ainda mais específica. O recém-formado precisa saber se envia um currículo atrás de emprego, presta concursos, continua seus estudos ou arrisca os três ao mesmo tempo. Aqueles que escolhem investir em uma pós-graduação têm um leque imenso de opções: especializações e mestrados em todas as áreas, em qualquer canto do país e do mundo. Texto: Por Hortênsia Franco de Carvalho @ortemcya

A cultura como atrativo A pós-graduação no exterior cada vez mais procurada por jovens brasileiros. Segundo a agente de viagens, Valquiria Mac-Dowell, sua agência recebe mais de 200 pedidos de estudantes com esse objetivo por período. “Apesar do alto número de inscritos, atualmente há cerca de 10 processos na agência, pois a maioria não é classificada”, explica. Tomar a decisão de estudar fora do país é apenas o primeiro dos passos para o estudante que quer seguir esse caminho. Para que seja aceito pelas universidades estrangeiras, o aluno precisa possuir um currículo primoroso. “Nem sempre estudar no exterior depende somente da vontade. É preciso fazer um planejamento de longo prazo que começa durante o curso de graduação. É muito importante ter estudado em uma boa universidade, conceituada, reconhecida no Brasil. As universidades lá fora têm essas informações e na hora da sua avaliação esse fator pesa, e muito”, afirma Valquiria.

O contato com uma cultura bastante diferente da nossa, é um dos fatores que leva estudantes a preferir universidades fora do país. Museus, teatros, culinária, são alguns dos aspectos que ajudam o estudante a determinar para onde deve ir. A acadêmica de violão da Belas Artes, Luciana Lozada, nem mesmo concluiu a graduação e já almeja uma pós no exterior. “Para um estudante de música, é essencial conhecer a cultura musical de outros países. Além de enriquecer meu currículo, será um intercâmbio cultural indescritível”.

A jornalista, Elaine Javorski, terminou a graduação e um curso de especialização no Brasil, mas concluiu os demais estudos na Europa. “Queria conhecer outros países, e a melhor desculpa que tive para isso foi estudar. Desse modo eu conhecia outros lugares, outras culturas, e ao mesmo tempo estudava”, diz..

Muitas dessas universidades recebem alunos do mundo todo, o que também é uma forma de contato com outras culturas. “É mesmo uma experiência cultural: estudando com pessoas de diferentes países, como Espanha, Itália, Japão, China, Índia, Turquia, entre muitos outros”, conta o economista Georges Kalache Netto, que terminou a pós-graduação na UC Berkeley (EUA), em 2008. Uma das exigências das instituições estrangeiras é a fluência em um segundo idioma. “É fundamental ser fluente na língua do país onde vai estudar. Não adianta dizer apenas ‘eu me viro’. Tem que ter comprovação através de exames oficiais, tais como TOEFL, IELTS, DELF, dependendo da língua”, explica Valquiria. A exceção nesse caso acontece quando o intercâmbio será em um país que tenha o português como idioma oficial. Essa é uma das razões que leva muitos brasileiros a Portugal.

Algumas universidades também exigem cartas de recomendação de professores ou empregadores. Portanto, dependendo do curso, é necessário que o candidato tenha alguma experiência profissional. “Também é necessária a elaboração de um ‘essay’. Um planejamento estratégico de carreira, em que você vai apresentar a sua situação atual, o que espera do curso, onde e como vai utilizá-lo, e onde pretende estar após absorver os conhecimentos advindos daquele curso”, afirma Valquiria.

Preços altos e a fuga deles Uma característica que faz com que muitos nem mesmo pensem em concluir os estudos fora do país, são os custos com a viagem e com a instituição. “Infelizmente esse não é um projeto aberto para todos, porque além da parte acadêmica, temos que levar em conta os custos, que são caros. Na Inglaterra, por exemplo, um mestrado pode variar de 13 a 20 mil libras. Um MBA vai além disso. Nos EUA, cursos de pós-graduação vão entre 13 e 20 mil dólares, e mestrados podem chegar a 50 mil”, esclarece a agente de viagens.

Uma alternativa para quem não pode arcar com os preços elevados das universidades, são as bolsas de ensino. A jornalista Letícia Perani terminou o mestrado em comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 2008, e desde então tenta uma bolsa de doutorado na IT University of Copenhagen, na Dinamarca. “Concorri com 235 candidatos de todo o mundo, para apenas 10 vagas. Fui classificada para a última etapa da seleção, que é uma entrevista presencial em Copenhague (com passagens aéreas e hospedagem pagas pela universidade), e considerada plenamente qualificada, mas fiquei de fora no corte final”, explica.

Outra opção para quem não tem condições financeiras de se manter fora do país, é conseguir um emprego durante os estudos. Porém, a burocracia e a legislação impedem, na maior parte dos casos, que estrangeiros trabalhem durante o período que se mantém no país para estudar. “Quem estuda não pode trabalhar, então ou se tem bolsa, ou consegue um trabalho informal, que foi o meu caso”, revela Elaine Javorski, que concluiu o mestrado na Universidade Católica Portuguesa em 2004. “O trabalho informal não é muito recomendado. Mas também há chances de participar de projetos de pesquisa, que pagam uma bolsa. Eu fazia parte de um desses projetos”, justifica.

Ensino brasileiro não fica muito atrás Uma polêmica sobre o crescente número de brasileiros que optam por estudar no exterior é quanto à qualidade de ensino no país. Muitas universidades brasileiras hoje são bastante renomadas, e mundialmente conhecidas. Há inúmeras instituições que oferecem cursos de pós-graduação no Brasil, tanto públicas quanto particulares. Até mesmo pequenas faculdades já contam com essa opção. Assim como as graduações, a qualidade dos cursos de pós varia de acordo com as universidades. “O nível de pós-graduação no Brasil apresentou um grande avanço, basta observar as pesquisas do final da década de 1990 e as que são vistas atualmente. Antes a maioria dos estudos apresentava apenas um perfil de um ‘estudo de casos’. Agora, a grande maioria, desenvolve um estudo com metodologia científica”, alega a professora de mestrado e doutorado do departamento de estatística da Universidade Estadual de Maringá, Margareth Toyama Udo. Ainda assim, o número de estudantes que preferem outros países para continuar os estudos está aumentando. “Acredito que seja pelo fato de algumas instituições no exterior apresentarem pesquisas de ponta. Isto é, nos países mais avançados na maioria das áreas e ainda há chance de aprender uma segunda língua”, assegura.

Em alguns casos, determinadas áreas de estudo existem apenas em um local. Assim, não há como comparar as universidades brasileiras com as estrangeiras. “Escolhi tentar um doutorado fora porque eu trabalho com um tema que ainda não é muito estudado no Brasil, que é a ligação entre os jogos eletrônicos e as interfaces gráficas de computador. Temos excelentes estudos de Cibercultura aqui no país, com pesquisadores conhecidos mundialmente, mas não nesse tópico específico de estudo. Na IT University of Copenhagen existe um professor [Anker Helms Jørgensen] que trabalha exatamente com a história da ligação entre os games e as interfaces de computador - por isso o meu interesse”, justifica Letícia.

Alguns estudantes até mesmo descartam a possibilidade de estudar em outros países, por considerar o ensino no Brasil de boa qualidade. “Não pensei em fazer uma pós-graduação fora, pois de certa forma, sempre quis me focar na psicologia clínica, e até hoje entendo que para essa área, há cursos de pós muito bons no Brasil. Faço um dos programas de aprimoramento profissional, financiados pela Fundap, um órgão do Governo do Estado de SP. Acho muito bem estruturado, o que possibilita meu crescimento profissional”, alega a psicóloga Melissa Toyama.

Quando volta ao Brasil, o pós-graduado precisa passar por um processo de “adaptação” do diploma. Primeiro ele precisa ser traduzido para o português (quando a pós-graduação é feita em um país de outro idioma) e revalidado. “A parte burocrática é bastante demorada, mas não é apenas isso. Você chega aqui com um diploma e tem que buscar uma área específica, que seja equivalente com a sua especialização”, explica Elaine. “Você leva tempo para se adaptar lá fora e depois para se readaptar aqui. Mas vale a pena”.

Pré-requisitos para uma pós-graduação no exterior:
- bacharelado no Brasil;
- comprovação de fluência no idioma do país (exceto em países de língua portuguesa);
- carta de recomendação (enriquece o pedido de vaga);
- experiência profissional na área (complementa o currículo). [ < Voltar ]

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