Martelando e atirando de dentro da trincheira do inconformismo

As mil faces do cigano da música instrumental - Por Paulo Marcondes - @pablomarcondez

Cecília era virgem e assim escolheu ser até o fim da vida. Morreu jovem, com um golpe de espada no peito, depois de quase asfixiada num quarto de banho superaquecido. Castidade como opção, conversar com anjos e tocar harpa eram coisas comuns em se tratando da vida na Europa por volta de 220 d.C.. Vivesse hoje, a jovem Cecília teria, muito provavelmente, uma vida diferente. Usaria calça jeans grudada nas pernas torneadas, óculos maiores que as bochechas brancas, blusa xadrez e um daqueles tênis nike que remetem aos anos 80. Em vez de relacionamentos angelicais, manteria amizade - colorida, ó juventude transviada! - com a galera hype que toma conta das calçadas da Rua Augusta... e, num dia qualquer, trombaria ali mesmo com um grupo de senhores barrigudos tocando o hino do Palmeiras em troca de trocados jogados num balde velho e descascado. A devoção lhe fez ‘Santa Cecília’, e a harpa, padroeira dos músicos.

Soubesse da história da santa que batiza o bairro onde mora, João Luciano da Silva interromperia esse texto -¬ com a liberdade que toma de desconhecidos, como lhe é característica -¬ e rasgaria: “Estuprada! De virgem à estuprada! Estuprada pela pirataria, pela burguesia, pelo PT, pelos malditos DJs e pela porcaria da tecnologia!”.

O bairro é disparado um dos mais belos da capital paulista. Santa Cecília contrasta prédios antigos e conservados, peculiaridades de uma cidade pequena, com edifícios novos e acabados, moradia de famílias pobres. Além do belo largo e a bela Igreja em cima da estação de metrô com a ‘obra-prima’ de Paulo Maluf, o Minhocão.

Pois se o bairro desperta o sentimento nostálgico durante os dias e o medo durante as noites, este senhor de nome José, e de codinome Martelato, desperta outra dúvida, talvez ainda mais obscura: Raul Seixas realmente morreu? Talvez se trocássemos a Bahia por Pernambuco, jogássemos os óculos escuros fora e cortássemos uns dez centímetros de sua altura, Raulzito - envelhecido, por suposto - seria José Luciano. Um Raul erudito. E que mesmo com o saxofone em riste no lugar da guitarra ainda consegue tirar um rock'n’roll que, quiçá, nem aquele saxofonista careca e de rabinho do Jô fosse capaz. Da janela da bagunçada casa/quarto/kitnet/cafofo que divide com a terceira esposa e o filho do segundo casamento, é possível avistar o Minhocão. O nome que consta nas placas, Elevado Costa e Silva, traz consigo a herança nada agradável da ditadura, época negra para vermelhos como Luciano... em teoria. “No regime, a gente ainda tinha carro, tinha emprego, não era essa merda de hoje em dia... de crise, gente na rua desempregada”.

Para alguns, o Elevado aliviou o trânsito da região. E pra maioria, ele se tornou uma das principais razões da decadência ter chegado às essas cercanias da zona oeste: limitou-se a impedir os raios de sol de baterem em alguns pontos da Avenida São João e da Rua Amaral Gurgel. Aproximou carros - em São Paulo, conhecidos como buzinas ambulantes - e fumaça de inúmeras residências do 3º andar pra cima, e deu teto à juventude que, segundo o músico de 55 anos, “fica deitada de dia e sai à noite pra fumar crack”. A verdade é que ele poderia ficar ali, atirando e atirando e atirando e atirando, com aquela metralhadora giratória que alguns chamam de boca, até o metrô fechar e o deadline estourar ainda mais que o habitual. Mas nem só de palavras vive Martelato. Ele precisa de fôlego pra, desde que não chova amanhã cedo, assoprar o sax e botar comida no prato.

(1)José Luciano, Robin Hood da classe artística “Vem cá, amigão... cê sabe se o Martelato mora no 42 ou no 45?” “Não tem nenhum ‘Martelado’ aqui, não.” “Tô, MartelaTÔ. Não tem? Um músico. Que toca com uma bandinha pelas ruas ali pela...” “Ah! O Luciano... o músico. Ó, é esse aqui ó”, aponta o porteiro pro primeiro dos três senhores que saem pela portinhola do prédio número 1001 da Rua Helvétia, numa manhã amarelada de queimar os olhos. Carregados de bolsas e instrumentos, todos ali aparentam mais de 50 anos, sendo que o mais velho certamente não paga mais pra passar na catraca da condução. O chapéu preto cobre os olhos do único dos três a não apresentar a predominante saliência abdominal dos machos de meia-idade, rebatizado de “Martelato”. Precisos dois dias para conseguir lhe tirar a bendita explicação. “Eu sou muito místico, fui além do 9º grau na Rosa Cruz, na Maçonaria... estudei esoterismo, astrologia, estudei nomes... e por uma questão de numerologia escolhi esse nome. Luciano dá azar, dá tudo errado com ele... o Luciano se formou em direito seis anos atrás e não pôde exercer a profissão. O Martelato, não. Tá aqui, dando entrevista pra uma revista, veja só!”, cai na risada. De volta à manhã de quarta-feira, o saxofonista estabelece o primeiro contato visual com o narrador.

“Você que é o repórter que me ligou, né? Muito prazer. Vai nos acompanhar até a Assembléia?”, indaga a figura de barba e cabelos grisalhos enormes, vestindo um jaleco vermelho com a frase “Sindicato dos Músicos - SP/ EXIJA MÚSICA AO VIVO” nas costas. Martelato apresenta os amigos e companheiros, Valdir e Paulo, e segue viagem que, a esse instante, tem como pano de fundo o arranha-céu do Banespa, como se ilustrasse de propósito a frase do músico: “Eu nasci em Pernambuco mas sou paulistano beeeeem da gema, Paulo. Mais de 40 anos aqui, tenho até neto paulistano”. Além da música, Martelato tem como dom a capacidade de pronunciar duas, até três frases por passo... e anda rápido, embora olhando sempre para o chão, o que faz lembrar uma barata perdida cruzando a Avenida São João.

Antes do sudeste, a carreira de José Luciano teve início na cidade de Belo Jardim, ainda moleque. A primeira banda, à base de flauta e percussão, “era pra tomar tubaína, comer bolo e ver os tarzans da vida na matinê. Não tinha outra coisa senão o cinema como diversão”. A liderança como característica marca tanto o cabra que, com menos de dez anos, reunia a criançada pobre da vila e saía tocando na porta dos vizinhos em troca de comida: “pra eles, não pra mim. Eu faço tudo pelos meus amigos, até hoje”. É o que diz enquanto pega, numa gráfica próxima, as camisetas do Sindicato que encomendou na semana passada para Paulo (que toca um piston de 18kg) e Valdir (que toca trombone), com quem já se vão mais de vinte anos de companheirismo. Da flauta de bambu pra trompa, da trompa para o trompete. Da banda do bairro para a filarmônica da cidade. E de Belo Jardim a São Paulo, em 1964.

“Veja bem, Paulo...”, continua à medida que distribui a Tabela de Cachês para Músicos Autônomos sem Vínculo Empregatício de 2009, do Sindicato dos Músicos Profissionais de São Paulo. De tão completo, o panfleto especifica o piso salarial dos diferentes tipos de instrumentos, desde shows ao vivo, participações em TV e rádio, até performances em casamentos. “Ninguém paga o piso, mas a nossa luta nem é mais essa. A gente, os músicos, tem que aceitar tocar por quanto oferecerem... mas ninguém quer música ao vivo mais”, comenta enquanto mostra a frase de Wilson Sandoli, ex-presidente da Ordem dos Músicos Brasileiros e do Sindicato, que ficou no cargo por 40 anos. Na frase se lia: “exija música ao vivo”. Em teoria, Sindicato paulista e Ordem nacional servem para ajudar e regulamentar a situação da classe (VER BOX). “O músico tem que estudar, tem que pegar esse saxofone e estudar ele todo. Pegar o trompete e estudar. Ir ao conservatório. Não essas porcarias de ficar colocando fita pra tocar em festa, em bar, em casa de show. Antes 13 músicos eram contratados para tocar num baile. Hoje, tem a fita ali tocando e a gente desempregado. Não é que não querem pagar o piso. Eles não querem pagar nada. A fita, o playback não come, não reclama”, pragueja.

(2)Martelato, personagem vivo da política nacional A História, essa que se faz presente nas páginas dos jornais que você ensinou seu cão a mijar em cima, que você decorava data por data dos seis aos 18 anos na escola, essa que passa e reprisa no History Channel, e que faz, umas duas vezes por ano, a capa da Super Interessante abordar o Império Romano e os segredos do nazismo... enfim, ela só existe porque é feita de estórias. A História - com “H” maiúsculo - é feita de milhares de fatos por vezes irrelevantes, ridículos e bregas que se entrelaçam. Por outras, fatos engraçados, inusitados, fantásticos (porém reais). Como bem compreendido no ensino fundamental, essa com “e” minúsculo nem sempre é completamente verdadeira. Mas aqui não nos cabe julgar e, sim, simplesmente dar voz ao cabra que, “por brincadeira” ou não, foi o primeiro a indicar Luiza Erundina como candidata à prefeitura paulistana, participou da fundação de um dos principais partidos nacionais e ataca outro com sangue nos olhos.

A voz não chega a oscilar e o olhar não desvia do nada nem quando perguntado sobre algo mais pessoal. Nem com o filho gritando à sua orelha, empolgado como um pequeno chimpanzé com o desenho na TV. Mas a melancolia está ali, sem sombra de dúvida. Tristeza de quem tem plena consciência do passar do auge, de quem sabe que as coisas dificilmente melhorarão. Martelato se denomina socialista de nascimento, e muito pela região em que nasceu: “Pernambuco é a maior concentração de comunistas do Brasil. Belo Jardim [sua cidade] é vizinha de Arco Verde... lá o exército prendeu a cidade inteira em 64”. A música significa tanto em sua vida, que o fez entrar para a banda marcial do exército, em São Paulo. O comportamento e a ideologia trataram de expulsar a si próprio dos militares.

Passeou pelas bandas da Record, bandas de apoio de praticamente todos apresentadores dos anais televisivos: Chacrinha, Raul Gil, Sílvio Santos, Bolinha, Gugu... pela renomada Orquestra Baccarelli e outras Filarmônicas. Tudo simultaneamente aos showmícios.

“A banda tocava e a galera ia junto! [...] Era muito showmício pra fazer, aí veio essa lei maldita que proíbe. E proibiu pra quê? Agora o político não pode fazer nada. A nossa turma vivia de showmício”, relembra os anos 80 e 90. Em 88, Martelato era trilha sonora da fundação do PSDB, partido de Mario Covas, um dos primeiros a contratar a trupe para os showmícios. “Ele adorava a nossa banda, fazia questão de vir e nos abraçar sempre que nos via”, relembra. Até então, o conjunto de Valdir, Paulo e José era só mais um a animar showmícios e embalar candidatos em plena reabertura política do país. Três anos antes, sua fanfarra foi desprezada por Ney Matogrosso na festa de FHC, então candidato à prefeitura contra Jânio Quadros. Quando o cantor afirmou ser atrapalhado pela banda, ganhou a antipatia de nosso personagem. A notoriedade de fato veio com a paraibana Erundina, primeira prefeita da maior cidade brasileira, indicação de Martelato.

“A gente estava numa reunião do PT, onde estavam a Erundina, Irede Cardoso e outros políticos. O candidato do Lula vinha de Brasília e aí eu falei, muito por brincadeira: ‘companheira, por que você não se candidata à prefeitura’? Ela ficou vermelha”, começa a rir. “Aí nós mesmos da banda começamos a entrevistar ela: ‘e se você for eleita’? ‘E pela segurança’? ‘Pela saúde você vai fazer o quê’? Quando ela se deu conta, tava falando como a prefeita e todo mundo ali parou, começou a ouvir e comprou a ideia. Aí a companheira Irede lembrou que o Lula era machista e não ia apoiar uma mulher. Que a gente fez? Rodou toda a zona leste de carro e foi falando com as pessoas”, conta o músico e então articulista político. A candidata fechou com Martelato e o grupo passou a tocar em todos seus showmícios. Cada apresentação, cada discurso, um sucesso. E, depois de vencer nas urnas em 1988, não faltaram políticos em busca do conjunto. “Aquele grupo tinha alguma coisa que todo mundo queria. Era o frevo que a gente tocava e a baianada toda pulava junto”, relembra suas origens nordestinas, as de Erundina e de grande parte da população de São Paulo.

(3)Os três mosqueteiros Deixando a gráfica pra trás e a caminho da Assembléia Legislativa de São Paulo, a superfície dá lugar ao metrô e o socialista Martelato se oferece para comprar o bilhete pra todo mundo, enquanto Paulo fica para trás, atrasado pelos 18kg carregados nas costas. Valdir lhe faz companhia. A voz alta, firme, e bem articulada, como quem empunha um microfone do topo de um caminhão de som, daqueles que marcam qualquer manifestação ou comício político, começa a cuspir balas adoidado. Quando nos damos conta, todo o vagão já não conversa e presta atenção no homem: “Antes, a música instrumental era valorizada pelos políticos. O músico era artista, era valorizado pela sociedade. A música de hoje é quase toda falada... não tem um acompanhamento, instrumento. É uma lástima!”. Junto com o nordeste ele abandonou a pobreza. A situação começou a melhorar quando apresentações em bailes, fanfarras, concursos de bandas apareceram no horizonte. Duas baldeações passadas, a estação Brigadeiro cede passagem à avenida Brigadeiro, principal ligação do Ibirapuera com a avenida Paulista: “Nunca vou esquecer o carnaval de 69, em Santos: 250 cruzeiros de reais, acho que era essa a moeda. Era muito bom, muito dinheiro”.

Com o decorrer dos passos, o policial a guardar a entrada da Assembleia Legislativa paulista observa com o rosto cada vez mais intrigado os quatro homens que se aproximam: três senhores e um barbudo jornalista de camisa xadrez. Alex Mamente é deputado estadual pelo PPS e tem seu gabinete no 2º andar do prédio. “Semana passada mesmo a gente veio aqui, ver se algum deputado aceitaria nos receber e esse nos disse pra voltar aqui hoje”, diz em meio à procura do bendito gabinete. “Nós queremos é fazer um projeto com um deputado pra ajudar a música, ajudar os músicos... incentivar a música ao vivo. Paulo, o músico de orquestra, o maestro, esses ganham bem demais. Um maestro ganha em torno de 80 mil reais por mês... mas e a gente? Que não tem onde tocar?”

Depois de levar bolo do deputado, com direito a olhar desconfiado de seu engomado assessor e duas secretárias, os três mosqueteiros da música clássica fazem uma mini-conferência no saguão.

“Se ele não nos ligar até semana que vem, nós voltamos aqui e tentamos a palavra com outro deputado”, define o líder. “A gente pega a Brigadeiro, sobe, pega todo o comércio, horário de almoço e pega aquela outra rua e termina lá nos Jardins”, Valdir propõe um caminho para a labuta. É pontualmente meio-dia e os 32 graus batem forte na região.

(4)A marcha das moedas São necessários vinte minutos até todos ali retirarem os instrumentos das malas, afinar e ensaiar o mínimo para não desafinar na frente do público. Há quem coloque a cabeça pra fora nos ônibus que sobem e descem a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, surpresos com a cena. A fascinação dos transeuntes gera sorrisos na face e espanto nos músicos: pessoas desacostumadas com instrumentos tão comuns e essenciais a eles. Para quem nasceu antes dos anos 1980, música e solfejo eram ensinadas na escola. Conhecer trombone, trompete, piston e música clássica erudita são comuns aos mais velhos, diferentemente da molecada pós-rock.

“A cultura do Brasil tá lá embaixo. Quando foi que você viu o Lula prestigiando um teatro? Uma ópera? O PT não liga pra artista. Até o Gilberto Gil saiu. O PT nunca fez nada pela cultura do país. O Lula se apoia no Corinthians e na seleção, e esquece da cultura... futebol, ópio do povo!”, atira durante os últimos preparativos da caminhada. O começo é desanimado: ninguém no restaurante próximo abre a mão. A oficina mecânica ganha uma orquestra exclusiva em seguida. Valdir, o mais rápido do trio, tenta descobrir o time do dono... e começa o hino do Corinthians a ser tocado. A cara feia do mecânico faz o repertório mudar para o hino tricolor, e assim vai, de moeda em moeda: “Antes da crise, uns dois anos atrás, a gente via até nota de 50, hoje, nem de cinco”.

Se você tiver algum interesse em ouvir Martelato praguejando contra a sociedade, pergunte sobre futebol e religião. Pra ele, peladas e igrejas evangélicas afastam o jovem e a sociedade das questões relevantes desse Brasilzão. Durante o começo de Luís Inácio na política nacional, o grupo de músicos acompanhou comício a comício, na tentativa de pedir apoio à classe. “O Lula se comprometeu com a gente”, indigna-se. Mas se há alguém no partido que desagrade mais esse homem do que o presidente, é a ex-prefeita Marta Suplicy: ”quando a Marta assumiu a prefeitura [em 2000], ela tirou o prédio da nossa associação na Avenida do Estado. Ela tomou o prédio”.

A romaria prossegue. E tem plateia pra todo gosto: há quem sorria, quem dá dinheiro, quem para pra conversar, quem ignora. E a cara feia dos donos de restaurantes, lotados devido ao horário. Um deles chega a pedir para a banda sair da frente do estabelecimento. “Já tem o barulho da rua pra incomodar os clientes”, diz. Martelato não para de tocar... apenas aponta para um dos baldes onde os trocados são jogados. Dali que ele, Valdir e Paulo tiram o sustento atualmente. O balanço da quarta-feira ensolarada, feito na pausa pra Fanta laranja, fica em torno dos 50 reais pros três. “Enquanto isso, o DJ tá ganhando sem fazer nada. Ganhando com o trabalho dos outros, sem saber uma vírgula de música de verdade. Tinha que pegar esse pessoal e quebrar todo o equipamento [as pick-ups]. O saxofone não come, mas eu que toco eles, como”.

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